sábado, 17 de outubro de 2015

sobre Funes

Confesso que há algum tempo uma leitura não me inquietava e me deliciava ao mesmo tempo. 
Recordar e esquecer, conceitos opostos, mas que formam parte do mesmo processo mental. Por exemplo, deixar eternizado um acontecimento no papel com todos os detalhes possíveis é, ao mesmo tempo, deixar de escrever sobre outro acontecimento (a não ser que queiramos passar a vida inteira escrevendo). Recordar uma coisa é deixar que outra (ou outras) se dissipem, desapareçam da memória (a menos que passemos a vida recordando. de certa forma, não era esse o caso de Funes?). 
Lembro-me que em uma aula de português, a professora citou que a palavra "recordar" vinha do latim "re-cordis", e significava "voltar a passar pelo coração". Então, olha só que curioso, até mesmo o que queremos recordar diz muito sobre quem somos, nos torna seres de uma subjetividade única. Isso porquê, penso eu, na nossa tentativa de lembrar o que foi vivido, transferimos nossas emoções para com aquele fato.. muitas vezes adicionamos ou ocultamos detalhes. Fico pensando como seria lembrar de tudo exatamente como foi, sem tirar nem pôr.. acho que seria estranho até mesmo fazer poesia assim. Seria tudo tão preto no branco, sem as nuances dos borrões de não lembrar perfeitamente. 
Impossível não concordar quando o narrador conclui "Suspeito, no entanto, que não era muito capaz de pensar. PENSAR É ESQUECER DIFERENÇAS, É GENERALIZAR, ABSTRAIR.No mundo abarrotado de Funes não havia senão detalhes, quase imediatos". Afinal é o pensar, pautado e formado pela nossa subjetividade e abstração do mundo, que produz ideias, opiniões, poesia... é nossa capacidade pra interpretar o mundo não apenas baseado em fatos, mas também (e talvez principalmente) perpassando por nossa singularidade; não existe o ser humano parcial.. nossas vivências, nossos desejos são o que nos fazem, nos constroem.

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